
Viajar com adolescentes é bem diferente de viajar com crianças pequenas. A logística costuma ficar mais simples, mas surgem novos desafios no planejamento da viagem em família: escolher destinos que interessem aos filhos, lidar com a argumentação deles e encontrar atividades que realmente despertem a curiosidade.
Na adolescência, o desafio da viagem deixa de ser logístico e passa a ser diplomático
Viajar com bebês: muito volume na mala, pouca complicação no roteiro
Viajo com meus filhos desde que eles tinham poucos meses de vida. Não querendo desmerecer o trabalhão que dá para fazer uma mala de viagem para a praia com um bebê de 6 meses – é tanta coisa que carregamos para um simples final de semana, que parece que vamos ficar fora de casa por meses!
Mas, do ponto de vista do entretenimento, quando seus filhos são ainda bebês, todo lugar será incrível para eles, afinal, tudo o que os pequenos querem é ficar perto dos pais. Para eles, tanto faz se você está em uma praia do litoral de São Paulo ou em Dubai! Nesta fase, além da presença dos pais, o importante são os estímulos diferentes: ambientes, texturas, sons, cores, pessoas novas.


A fase das crianças: piscina resolve quase tudo
Quando eles crescem um pouco e entram na fase das grandes descobertas, viajar continua sendo relativamente simples. Um hotel com piscina já resolve boa parte da equação. Se tiver parquinho, fazendinha ou recreação, melhor ainda. A programação não precisa ser complexa: um sorvete depois do jantar, uma atividade ao ar livre, uma brinquedoteca bacana… E pronto, a viagem já vira uma grande aventura.


Agora… experimente viajar com adolescentes. A coisa muda! A mala até fica mais enxuta, mas uma piscina não basta e tirar o leite da vaca na fazendinha está bem distante dos planos de entreter os seus filhos…

O verdadeiro desafio de viajar com adolescentes
Não podemos negar que a logística para viajar com adolescentes é muito mais simples, além de termos o benefício de arrumarem a mala sozinhos!

Agora, o verdadeiro desafio é o planejamento, a escolha do destino.
Vamos ser sinceros? A gente tem que primeiro convencê-los de que sair de casa vale a pena!
Observação: É claro que se você subir a régua, ou seja, aparecer com uma oferta do nível “Vamos para Disney/ Paris/ Japão/ esquiar na neve/ safari na África” o aceite será instantâneo e de muito agrado, mas vamos falar aqui de viagens mais acessíveis e cotidianas, ok?
Também não estou falando sobre dinheiro. Com o mesmo orçamento, uma família pode fazer diversos tipos de viagens, dentro de suas possibilidades. Não é sobre finanças, e sim sobre a arte de convencer adolescentes a embarcar na sua ideia.
Expectativa x realidade
| Destino | Adolescente |
|---|---|
| Hotel fazenda? | “Não sou mais criança pra ficar em recreação!” (São poucos os adolescentes que curtem a recreação teens – aliás, são raros os hotéis que oferecem alguma atividade para eles). |
| Um destino urbano? | “Vai ter que andar muito? Pra que entrar em outro museu?” |
| Ecoturismo? | “Prefiro ficar no meu quarto”. |
| Praia? | “Mas é longe?” |
| E uma viagem de trem? | “Nossa, trem?? Que coisa de velho…” |
É, caras mães, a aprovação juvenil chega, mas raramente vem sem antes dar aquela revirada nos olhos, fazer a cara de tédio e dar a famosa respostinha diante de qualquer sugestão nossa.
E isso não é maldade e muito menos ingratidão pelas oportunidades que estamos oferecendo. É a maneira deles dizerem: “eu estou crescendo e quero ter voz própria“.
Além disso, estamos criando filhos da Geração Alpha (nascidos a partir de 2010), que já nasceram em um ambiente digital. Para eles, acostumados com o mundo ‘sob demanda’, a vida acontece na velocidade de um scroll de tela. Diferente de uma viagem de descoberta, onde o choque com o analógico é inevitável.

O importante é não desanimar e saber contornar a situação. Porque no fundo a gente sabe: eles podem até reclamar, mas no dia da viagem estarão lá, ansiosos e perguntando se falta muito pra chegar. Vão explorar o hotel com olhar curioso e, quem sabe, até provar um prato novo desta vez. Mais uma história para contar.
Como o destino pode convencer os filhos
Segundo o estudo global ‘Generation Alpha‘ da Wunderman Thompson, 81% dos pais millennials consultam os filhos antes de fazer qualquer compra, e no turismo isso é ainda mais forte. A Geração Alpha influencia diretamente a escolha do destino. Se eles não “compram” a ideia, a viagem já pode começar um tanto quanto azeda. Ignorar o gosto deles é garantia de um roteiro com ‘ruído’ — e ninguém quer isso nas férias, certo?
A minha próxima viagem será para a histórica Ouro Preto, em Minas Gerais. Vamos concordar que não é exatamente o destino dos sonhos dos adolescentes e por isso eu confesso que hesitei muito antes de decidir por esse lugar (que faz tempo que quero conhecer).
Ano passado fomos para o Beto Carrero junto com uma turma de amigos. E agora, como vamos competir aquela farra toda com o silêncio de uma igreja barroca?

Eu já sei que eles vão estranhar. Também tenho quase certeza de que vão reclamar das famosas ladeiras da cidade. (Cansa muito, né? Mas, curiosamente, não reclamam de um dia inteiro no Hopi Hari. E podem passar horas passeando com os amigos no shopping sem se cansar).
Talvez emburrem e se fechem dentro do capuz do moletom na parte mais legal do passeio. Talvez achem as igrejas todas parecidas.

Mas também sei que, no meio do caminho, alguma coisa mágica pode acontecer.
Pode ser o impacto de entrar em uma igreja barroca pela primeira vez. Ou podem se interessar por uma história curiosa sobre a Inconfidência Mineira. Pode ser o simples prazer de sentar em uma praça, comer um doce de leite mineiro e observar a cidade. Minha filha até hoje não se esquece do sorvete de queijo que ela provou em São Francisco Xavier, há 5 anos.
A ‘estratégia de pré-venda’: Como despertar o interesse deles por destinos históricos
Enquanto isso, aqui em casa, eu já comecei a fazer o que toda mãe viajante aprende a fazer: a pré-venda da viagem.
– Sabiam que a gente vai fazer um passeio dentro de uma mina de ouro desativada? Será que vocês terão coragem?
E esse preparo rendeu o interesse:
– Ainda tem ouro lá?
– Não, mas tem outros minérios que dá para reconhecer pela cor nas paredes das minas…
– Eu já vi isso em uma aula de história…
E mesmo que nada disso aconteça da forma “ideal” que a gente imagina, ainda assim estaremos juntos, vivendo algo fora da rotina.

O verdadeiro sentido de viajar com adolescentes
Por mais que a gente os envolva na organização do roteiro, às vezes precisamos bancar algumas escolhas — mesmo correndo o risco de ouvir um “que saco” no caminho.
Mas existe algo muito legal nessa fase também.
Eles já são grandes o suficiente para entender histórias, fazer perguntas, formar opiniões. Já conseguem observar o mundo com mais profundidade. Já conseguem guardar memórias que talvez só façam sentido anos depois.
Eu vou esperar eles crescerem mais?? Até porque (segura o choro, mãe), daqui a pouquinho quem estará fazendo o nosso papel de companhia serão os amigos, né?
Talvez essa seja a maior lição de viajar com adolescentes: nem sempre eles demonstram entusiasmo imediato, mas as experiências ficam guardadas.

E, anos depois, muitas dessas viagens voltam em forma de lembranças, histórias e referências que ajudaram a formar quem eles se tornaram. Afinal, continuo batendo na tecla que as viagens são um agente transformador na vida das famílias.
E agora fica aqui o meu compromisso de contar todos os detalhes dessa nossa viagem à Ouro Preto e as reações dos meus filhos.
Quem sabe não é um preparatório para outro sonho de consumo meu, uma viagem de trem de Curitiba à Morretes? Será que o humor deles vai permitir 4 horas em um trem?
Mas me conte, qual a sua dica para prender a atenção dos seus adolescentes em uma viagem?
Viagens citadas nas fotos desse texto:
Nosso roteiro de 3 dias em Montevidéu
PikurruchA’s: um sonho cor de rosa
Hotel próximo ao Beto Carrero: hospedagem em Penha
Roteiro de 2 dias em Aparecida


